O Canto do Galo
O Canto do Galo: Vigília, Trombeta e Consciência nos Evangelhos
“Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo antes que três vezes negues que me conheces.”
(Lucas 22:34)
A expressão “o canto do galo”, presente nos relatos da negação de Pedro, costuma ser compreendida de forma simplista como o canto literal de uma ave. No entanto, quando analisada à luz do contexto histórico, cultural e teológico do século I, essa referência revela um significado muito mais preciso e profundo, funcionando como um marcador temporal oficial e carregado de simbolismo.
O “canto do galo” como referência histórica de tempo
No mundo judaico-romano, especialmente sob domínio romano, a noite era organizada em vigílias, ou turnos de guarda, utilizados tanto para fins militares quanto como referência horária comum à população. Esse sistema dividia a noite em quatro vigílias, permitindo a organização da segurança urbana e a troca ordenada dos soldados responsáveis pela vigilância.
Jesus utiliza exatamente essa estrutura ao alertar seus discípulos em Marcos 13:35:
Vigília: 1ª
Nome Grego: ὀψίας (opsias) — substantivo — tarde / à noite (em valor temporal) / fim da tarde / início da noite ou ὀψέ (opsé) — advérbio — Ao cair da tarde / tarde avançada / entardecer
Referência Horária: 18h – 21h
Marcador de Jesus: À tarde (ou ao anoitecer)
Uso bíblico: Mt 14:15; Mc 11:11; Mc 13:35. Marca o fim do dia de trabalho e o início do período de vigia. O início da guarda.
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Vigília: 2ª
Nome Grego: μεσονύκτιον (mesonýktion) — Substantivo
Referência Horária: 21h – 00h
Marcador de Jesus: À meia-noite
Uso bíblico: Lc 11:5; At 16:25
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Vigília: 3ª
Nome Grego: ἀλεκτοροφωνία (alektorophōnía) — Substantivo
Referência Horária: 00h – 03h
Marcador de Jesus: Ao cantar do galo
Uso bíblico direto: Mc 13:35
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Vigília: 4ª
Nome Grego: πρωΐ (prōí) — advérbio — Cedo / ao romper do dia ou πρωΐα (prōḯa) — substantivo — manhã / madrugada final / alvorada / o período da madrugada ou o início da manhã
Referência Horária: 03h – 06h
Marcador de Jesus: Pela manhã (ou ao amanhecer).
Uso bíblico: Mc 13:35 (como nome técnico); Mt 27:1; Jo 21:4.
Dentro dessa estrutura, o período compreendido entre a meia-noite e o início da madrugada era conhecido tecnicamente como a terceira vigília da noite. Em grego, esse intervalo recebia o nome de ἀλεκτοροφωνία (alektorophōnía), expressão que literalmente significa “canto do galo”. Importa destacar que esse termo não se refere diretamente ao som de um animal, mas a um momento específico da noite, amplamente reconhecido no mundo antigo.
Essa compreensão é confirmada pelo próprio texto bíblico. Em Marcos 13:35, Jesus enumera os períodos da noite utilizando marcadores temporais claros: “à tarde, à meia-noite, ao cantar do galo ou pela manhã”. O paralelismo do texto demonstra que o “cantar do galo” funciona como indicador de tempo, assim como as demais expressões, e não como uma simples descrição zoológica.
O Gallicinium: A trombeta romana e a troca da guarda
Esse marcador temporal se conecta diretamente às práticas militares romanas. A troca da guarda, especialmente nas proximidades da Fortaleza de Antônia (próxima ao Templo), onde se concentrava a guarnição responsável pela segurança de Jerusalém, era anunciada por um toque de trombeta conhecido em latim como Gallicinium.
Esse som oficial sinalizava o encerramento de uma vigília e o início da seguinte, sendo audível por amplas áreas da cidade e funcionando como referência pública de tempo.
Assim, o chamado “canto do galo” correspondia, na prática, ao som emitido pelo trombeteiro romano, responsável por marcar o tempo e coordenar a vigilância noturna. Seguindo essa lógica histórica, o “galo” mencionado nos Evangelhos não deve ser entendido necessariamente como uma ave em seu sentido literal, mas como uma metáfora funcional para o sinal sonoro que anunciava a mudança de turno.
A Pureza Ritual em Jerusalém
Além do contexto romano, a própria cultura judaica do período contribui para essa compreensão.
Do ponto de vista da cultura judaica, esse entendimento é ainda mais fortalecido pelas normas de pureza ritual vigentes em Jerusalém. Segundo fontes rabínicas como a Mishnah (Baba Kamma 7:7), a criação e circulação de galos eram fortemente desencorajadas na cidade santa, sobretudo em áreas próximas ao Templo, devido ao risco de contaminação cerimonial. Jerusalém não era uma cidade comum, mas um espaço ritualmente distinto, especialmente durante festas como a Páscoa. Esse dado cultural torna improvável que o canto de um animal doméstico funcionasse como referência pública confiável de tempo, reforçando a compreensão de que o “canto do galo” mencionado nos Evangelhos se refere a um sinalizador oficial de tempo — o toque da trombeta romana que marcava a troca da guarda ao final da terceira vigília da noite.
Uma ou duas vezes cantou o galo?
Durante períodos festivos, como a Páscoa, quando Jerusalém recebia grande número de peregrinos, a vigilância era intensificada. Nesses casos, o toque da trombeta podia ocorrer mais de uma vez, em direções diferentes, para garantir que o sinal fosse ouvido por todos os postos de guarda. Esse dado histórico ajuda a compreender por que o Evangelho de Marcos registra que o “galo cantaria duas vezes” (Mc 14:30), enquanto os demais evangelistas mencionam apenas o marcador final do tempo.
O cumprimento da palavra e o despertar da consciência
Quando o som do Gallicinium finalmente ecoa — seja compreendido como o toque da trombeta ou, secundariamente, como o canto literal — o texto bíblico enfatiza o cumprimento exato da palavra de Jesus:
“E imediatamente, estando ele ainda a falar, cantou o galo.” (Lucas 22:60)
O “canto do galo” não apenas encerra uma vigília; ele encerra uma ilusão. Há um contraste teológico profundo aqui: enquanto o som da trombeta representava o poder do Império que prendia Jesus, para Pedro, aquele som representava o poder da Palavra que o confrontava. É o momento em que a noite começa a ceder lugar ao amanhecer e Pedro é posto face a face com a distância entre sua autoconfiança e sua fragilidade humana. Por isso, Lucas registra de forma tão incisiva:
“Então, voltando-se o Senhor, fitou Pedro.” (Lucas 22:61)
O som não acusa. Ele revela. Revela a verdade, desperta a consciência e abre caminho para o arrependimento.
Conclusão
À luz do contexto histórico e bíblico, o “canto do galo” deve ser compreendido como:
▪️Um marcador oficial de tempo, ligado à terceira vigília da noite;
▪️O som do Gallicinium, o toque da trombeta romana — um evento associado à troca da guarda romana, anunciada pelo toque do trombeteiro;
▪️Um detalhe preservado com precisão histórica, especialmente no Evangelho de Marcos;
▪️E, teologicamente, um símbolo do despertar doloroso da consciência humana diante da verdade.
A profecia de Jesus não falha no detalhe nem no tempo. Ela se cumpre no instante exato em que a noite termina, a palavra se confirma e o coração é confrontado.
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Observação:
Para uma explicação técnica e objetiva sobre o que era o “canto do galo” no século I, veja também:
Nota Técnica: O Que Era o “Canto do Galo” na Bíblia
https://macjhogo.blogspot.com/2025/12/nota-tecnica-o-que-era-o-canto-do-galo.html
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| Diogo Oliveira |


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