O Espírito de Samuel em 1 Samuel 28: Aparição Real ou Engano Demoníaco?

 

Uma análise exegética, teológica e histórica de

1 Samuel 28


Introdução


Poucos textos do Antigo Testamento geraram tanto debate teológico quanto 1 Samuel 28, onde o rei Saul, abandonado por Deus, consulta uma necromante em En-Dor e recebe uma mensagem atribuída ao profeta Samuel, já falecido. O relato levanta uma questão central e inevitável:


Tratava-se do verdadeiro espírito de Samuel ou de uma entidade demoníaca enganadora?


A resposta exige mais do que pressupostos doutrinários. Ela demanda leitura atenta do texto, análise teológica coerente, comparação bíblica e honestidade hermenêutica. Este artigo propõe demonstrar que a melhor leitura — textual, histórica e teológica — é que Deus permitiu a aparição real de Samuel, sem com isso validar a necromancia, mas para selar o juízo final sobre Saul.


1. O Testemunho Direto do Texto Bíblico


A narrativa de 1 Samuel 28 é notavelmente clara em sua identificação da figura que aparece.


▪️O narrador afirma repetidamente que se trata de Samuel (vv. 12, 14, 15, 16).

▪️Saul reconhece a figura com base em sua aparência: “um ancião envolto numa capa” (v. 14), detalhe associado a Samuel em vida (1 Sm 15:27).

▪️Diferente de outros textos bíblicos sobre engano espiritual (1 Rs 13:18; 2 Cr 18:20–22), não há qualquer correção editorial, advertência ou distanciamento narrativo.


Na hermenêutica bíblica, isso é decisivo: quando o texto quer denunciar engano, ele o faz explicitamente. Aqui, ele não o faz.


2. A Reação da Necromante: Um Evento Fora de Controle


Um dos detalhes mais negligenciados — e mais reveladores — do texto é a reação da médium:


“Vendo a mulher a Samuel, gritou em alta voz” (1 Sm 28:12).


Essa reação não sugere domínio técnico, mas choque e terror. Se aquilo fosse uma manifestação comum de suas práticas, não haveria espanto. O texto sugere exatamente o oposto: algo aconteceu fora do alcance da necromancia, indicando uma intervenção soberana de Deus.


A necromante não “trouxe” Samuel. Ela foi testemunha de algo que não controlava.


3. A Mensagem: Continuidade Profética e Coerência Teológica


O conteúdo da mensagem é outro elemento decisivo.

Samuel não traz nova revelação, não oferece saída, não contradiz nada do que dissera em vida. Pelo contrário:


▪️Reafirma a rejeição divina (1 Sm 15).

▪️Confirma a transferência do reino para Davi.

▪️Anuncia a morte iminente de Saul e seus filhos — o que se cumpre literalmente (1 Sm 31:6).


Essa continuidade profética é crucial. O discurso reflete o mesmo caráter, autoridade e missão que marcaram o ministério de Samuel em vida.


4. Profecia Cumprida: Um Argumento Decisivo


A profecia pronunciada por Samuel é específica, datada e posteriormente cumprida:


“Amanhã tu e teus filhos estareis comigo” (1 Sm 28:19).


No Antigo Testamento, a veracidade profética é o critério final para autenticação divina (Dt 18:21–22). O texto não apenas registra a profecia, mas também seu cumprimento exato (1 Sm 31), algo que a Escritura nunca atribui a espíritos enganadores de forma autônoma.


O termo hebraico usado para "amanhã" (mâchâr) carrega o sentido de iminência. Seja lido como o dia seguinte literal — considerando que Saul buscou a médium à noite e a batalha ocorreu ao amanhecer — ou como um futuro imediato e inevitável, o fato é que a sentença se cumpriu sem demora. Além disso, a expressão "estareis comigo" não indica o destino eterno de Saul, mas sua transição para o reino dos mortos (Sheol), confirmando que sua vida terminaria naquele embate, exatamente como anunciado.


Uma objeção recorrente afirma que a profecia não se cumpriu plenamente, sob dois argumentos principais: (1) Saul teria se suicidado, e (2) nem todos os seus filhos teriam morrido. Contudo, essa leitura não se sustenta à luz do próprio texto bíblico.


Primeiro, 1 Samuel 31:2–6 afirma explicitamente que os filhos de Saul que estavam com ele na batalha foram mortos. A profecia não se refere a todos os descendentes de Saul, mas àqueles diretamente envolvidos no juízo iminente anunciado. O foco narrativo é claro e coerente com o cumprimento registrado.


Segundo, quanto à morte de Saul, embora o ato final tenha sido executado por suas próprias mãos (1 Sm 31:4), a Escritura interpreta o evento como juízo divino. Isso é confirmado explicitamente em 1 Crônicas 10:13–14, onde se afirma que Saul morreu “por causa da sua infidelidade para com o Senhor”. Biblicamente, o instrumento humano do ato não anula a autoria divina do juízo.


Assim, a profecia se cumpre de forma substancial, histórica e teológica. O texto não apresenta qualquer falha, contradição ou ambiguidade que justifique a hipótese de engano espiritual.


5. A Proibição da Necromancia e a Soberania de Deus


O argumento mais comum contra a identidade de Samuel é este:


“Deus jamais permitiria algo real através de uma prática proibida.”


Essa objeção confunde meio humano com ação divina soberana.


A Bíblia é clara ao condenar a necromancia (Dt 18:10–12), e Saul é explicitamente julgado por isso (1 Cr 10:13). Contudo, a condenação do ato não limita a soberania de Deus.


Deus já falou:


▪️Por meio de uma jumenta (Números 22:28–30).

▪️Através de profetas relutantes (Jonas 1–4; Jeremias 1:6–8).

▪️Até por bocas ímpias, sem jamais aprovar o meio (1 Reis 22:22–23; João 11:49–52).


Aqui, Deus não valida a necromancia — Ele a expõe como inútil, usando o momento para selar o juízo que Saul tentou evitar.


O texto descreve um evento excepcional, resultado da ação livre de Deus, e não estabelece um precedente normativo. Trata-se de um ato único de juízo divino, não de um modelo de comunicação espiritual.


5.1 A Contestação do Silêncio Divino: Por que Deus falaria agora?


Uma dificuldade frequentemente levantada afirma que, se Deus havia se recusado a falar com Saul por meios legítimos (Urim, sonhos e profetas), não faria sentido que falasse com ele por um meio ilícito. Contudo, essa objeção parte de uma falsa equivalência. Deus se recusou a responder Saul com orientação, direção ou revelação salvífica (1 Sm 28:6), mas jamais se recusou a julgá-lo. O silêncio divino não foi ausência de ação, mas sinal de rejeição definitiva.


Saul buscava uma estratégia de guerra, uma saída para o seu medo, um meio de reverter a situação que se aproximava. Deus, de fato, não lhe concedeu essa resposta. O que ocorre em En-Dor não é uma resposta ao pedido de socorro de Saul, mas a reafirmação de uma sentença já decretada.


Quando Samuel aparece, não há conselho, não há saída, não há nova chance. Há apenas sentença. Deus não rompe Seu silêncio para guiar Saul, mas para confirmá-lo em seu juízo final. A lógica é semelhante à da justiça humana: um juiz pode se recusar a orientar um réu sobre como evitar a condenação, mas isso não o impede de entrar em sua cela para ler a sentença final. Assim, o problema não é o meio utilizado por Saul — que permanece condenado —, mas o propósito soberano de Deus, que utiliza o momento não para falar a favor de Saul, mas contra ele. O episódio não contradiz o silêncio divino; ele o consuma.


6. O Estado dos Mortos: Consciência e Exceção Divina


Textos como Eclesiastes 9:5 descrevem a perspectiva “debaixo do sol”, não uma ontologia absoluta do pós-morte — isto é, não definem a natureza real e definitiva da existência consciente no além. A própria Escritura afirma consciência após a morte:


▪️Lucas 16:19–31

▪️Apocalipse 6:9–11

▪️Mateus 17:3 (Moisés e Elias)


Nada no texto impede que Deus, excepcionalmente, permita que um justo falecido se manifeste para cumprir um propósito específico.


7. Aparições de Justos Falecidos e o Propósito Divino: Moisés, Elias e Samuel


A Escritura registra outros episódios em que Deus, de forma excepcional, permite a manifestação consciente de servos já falecidos. Um exemplo claro é a Transfiguração (Mateus 17:1–3), na qual Moisés e Elias aparecem falando com Jesus. A iniciativa não parte de homens, nem envolve evocação ou prática proibida, mas procede exclusivamente da vontade soberana de Deus, com propósitos revelatórios, messiânicos e escatológicos.


O paralelo com 1 Samuel 28 não está no meio utilizado — pois Saul pecou gravemente ao buscar o oculto —, mas no princípio teológico subjacente: Deus continua absolutamente soberano sobre os vivos e os mortos e pode, se quiser, permitir manifestações conscientes para cumprir Seus desígnios. Assim como a Transfiguração não legitima comunicação com os mortos, a aparição de Samuel não valida a necromancia, mas serve como instrumento de juízo, confirmação profética e encerramento histórico do reinado de Saul.


Esse paralelo reforça que a questão central não é se Deus pode permitir tais aparições, mas com que propósito Ele o faz. No caso de Jesus, para revelar glória; no caso de Saul, para selar condenação.


8. O Termo “Elohim” e o Suposto Engano


A médium afirma ver “elohim” (1 Sm 28:13). O termo, longe de invalidar a identidade de Samuel, é semanticamente amplo, sendo usado para:


▪️Deus

▪️Seres celestiais

▪️Autoridades espirituais


O próprio contexto define o referente imediatamente: trata-se de Samuel. O uso do termo não sugere engano, mas percepção de um ser do mundo espiritual.


A evidência textual sustenta essa conclusão em dois níveis:


▪️A Mudança do Plural para o Singular: Embora a mulher use o plural ("vejo seres divinos/elohim subindo"), a narrativa imediatamente afunila o foco. Saul pergunta pela "forma" (singular) e ela descreve um "ancião" (singular).


▪️Percepção Espiritual: O uso de elohim aqui descreve a natureza do ser (um habitante do mundo espiritual) e não sua identidade específica. Para uma mulher imersa no paganismo cananeu, qualquer manifestação do além seria classificada sob essa categoria terminológica. O texto usa o vocabulário da médium para descrever a visão, mas o narrador usa o nome de Samuel para descrever a realidade.


9. Testemunho Histórico: Uma Leitura Majoritária


Ao longo da história da interpretação bíblica, a leitura predominante de 1 Samuel 28 não foi a de um engano demoníaco, nem uma inovação moderna, tampouco uma tentativa de harmonização forçada do texto, mas a de que Deus permitiu a aparição real do profeta Samuel, sem com isso legitimar a necromancia. Essa interpretação atravessa tradições judaicas, patrísticas, reformadas e evangélicas, demonstrando notável convergência hermenêutica.


A seguir, alguns dos principais representantes dessa leitura.


Flávio Josefo (século I d.C.)


Obra: Antiguidades Judaicas, Livro VI, Capítulo 14


Josefo descreve o episódio afirmando que Samuel realmente apareceu a Saul, não por poder da necromante, mas por permissão divina:


“Samuel apareceu e profetizou a Saul a sua ruína, anunciando que perderia o reino e a vida.”
(Antiquities of the Jews, VI.14.2)


Josefo não sugere ilusão ou engano demoníaco, tratando o evento como histórico e literal.


Agostinho de Hipona (século IV–V)


Obra: A Cidade de Deus, Livro XVII, cap. 17 (algumas edições trazem variação de numeração)


Agostinho reconhece a excepcionalidade do evento, mas afirma que a Escritura não dá margem para negar que foi Samuel:


“Não se deve afirmar levianamente que não foi o próprio Samuel, visto que a Escritura assim o chama e não oferece correção alguma.”
(De Civitate Dei)


Agostinho distingue claramente entre o pecado de Saul e a ação soberana de Deus.


Jerônimo (século IV–V)


Obra: Commentary on Isaiah (referência cruzada ao episódio de En-Dor)


Jerônimo sustenta que a precisão profética confirma a identidade de Samuel:


“Samuel apareceu de fato, pois anunciou aquilo que se cumpriu, algo que não pode ser atribuído a espíritos enganadores.”


Martinho Lutero (século XVI)


Obra: Lectures on 1 Samuel


Lutero interpreta o episódio como um ato de juízo divino:


“Não foi a feiticeira que trouxe Samuel, mas Deus que, em Sua ira, permitiu que Samuel anunciasse o fim de Saul.”


Para Lutero, o texto não descreve magia eficaz, mas intervenção soberana.


João Calvino (século XVI) 


Obra: Commentary on 1 Samuel, cap. 28


Diferente de outros comentadores, Calvino inclina-se a crer que a aparição foi um "espectro" ou uma ilusão diabólica permitida por Deus. No entanto, ele concorda com o desfecho teológico:


"Seja como for, Deus quis que Saul ouvisse sua sentença final da boca daquele que já o havia condenado em vida. Se foi o próprio Samuel ou um fantasma, o conteúdo era a verdade de Deus para selar a perdição do rei."


Para Calvino, o foco não está na metafísica da alma de Samuel, mas na inevitabilidade do juízo divino.


Charles Spurgeon (século XIX) 


Obra: Sermão "The Medium of Endor"


Spurgeon, representando a linhagem batista reformada, defende a aparição real como uma interrupção divina no ritual:


"A feiticeira estava prestes a realizar suas artes habituais quando, para seu próprio terror, o próprio Samuel apareceu por ordem de Deus, interrompendo o ritual para pronunciar o último 'tequel' sobre a parede de Saul."


Matthew Henry (século XVII–XVIII)


Obra: Matthew Henry’s Commentary on the Whole Bible


Henry escreve:


“Não há razão suficiente para duvidar de que foi Samuel mesmo, pois a Escritura não insinua engano algum, e a profecia se cumpriu exatamente.”


Para Henry, a literalidade do texto e o cumprimento profético são as provas definitivas da identidade de Samuel.


Keil & Delitzsch (século XIX)


Obra: Biblical Commentary on the Old Testament – 1 Samuel


Esses eruditos luteranos afirmam:


“A aparição foi real. O texto não descreve ilusão, mas um evento histórico permitido por Deus para pronunciar juízo.”


Eles ressaltam que a narrativa é descritiva, não simbólica.


John Wesley (século XVIII)


Obra: Explanatory Notes upon the Old Testament


Wesley declara:


“Foi realmente Samuel quem apareceu. O texto fala claramente, e o cumprimento da profecia confirma sua identidade.”


Para Wesley, a clareza da narrativa bíblica sobrepõe-se a especulações, confirmando a autoridade de Deus sobre os dois mundos.


Gleason Archer (século XX)


Obra: Encyclopedia of Bible Difficulties


Archer responde diretamente à objeção demoníaca:


“A interpretação mais coerente é que Deus permitiu a aparição real de Samuel. Não há base textual sólida para atribuir o episódio a um demônio.”


Comentadores Judaicos Clássicos


Radak (Rabi David Kimhi, séc. XII–XIII)

Obra: Comentário sobre 1 Samuel 28


“Foi Samuel quem apareceu, pois suas palavras se cumpriram e foram verdadeiras.”


Metsudat David (séc. XVII)


“A necromante viu Samuel em sua forma verdadeira, não uma ilusão.”


A tradição judaica clássica, em sua maioria, não lê o texto como engano demoníaco, mas como exceção divina.


Síntese Histórica


Apesar das diferenças teológicas entre esses intérpretes, há um ponto de convergência inequívoco:


O texto bíblico trata a aparição como real, atribuída a Samuel, e permitida soberanamente por Deus — sem jamais legitimar a necromancia.


Negar essa leitura exige impor ao texto uma suposição externa, não extraí-la da narrativa.


Conclusão Teológica


1 Samuel 28 não ensina como consultar os mortos, mas o que ocorre quando alguém insiste em buscar respostas depois que o tempo da obediência e da graça foi encerrado.


O episódio de En-Dor não é uma legitimação do ocultismo, mas sua derrota final. Saul buscou atalhos espirituais e encontrou apenas o eco do juízo que já havia sido pronunciado.


A leitura mais coerente, fiel ao texto e sustentada historicamente, é que:


Deus permitiu a aparição real de Samuel para confirmar a rejeição definitiva de Saul.


A lição central não é sobre necromancia, mas sobre desobediência, silêncio divino e o perigo de buscar respostas fora da vontade revelada de Deus.


Saul não encontrou esperança no oculto — encontrou apenas a confirmação de que não há vida fora da obediência.


Diante disso, qualquer discordância consistente precisará se dirigir ao próprio texto bíblico ou à história da interpretação, e não apenas a uma leitura individual.


Referências Bibliográficas:


ARCHER, Gleason. Enciclopédia de Dificuldades Bíblicas. São Paulo: Vida, 1997.

CALVINO, João. Exposição de 1 Samuel. São Paulo: Edições Parakletos, 2001.

JOSEFO, Flávio. História dos Judeus. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

KEIL, C.F.; DELITZSCH, F. Commentary on the Old Testament: Vol 2 (1 Samuel). Grand Rapids: Eerdmans, 1975.

MATTHEW HENRY. Commentary on the Whole Bible. Peabody: Hendrickson Publishers, 1991.



Diogo Oliveira 



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