Nota Técnica: O Que Era o “Canto do Galo” na Bíblia
Este texto funciona como uma nota técnica complementar ao artigo “O Canto do Galo: Vigília, Trombeta e Consciência nos Evangelhos”.
https://macjhogo.blogspot.com/2025/12/o-galo-nao-cantou.html
Aqui, o objetivo não é explorar o simbolismo narrativo do episódio, mas esclarecer com precisão histórica, cultural e exegética o que a expressão “canto do galo” significava no contexto judaico-romano do século I. Ao compreender o termo como um marcador oficial de tempo — ligado às vigílias da noite e à organização militar romana — o leitor é conduzido a uma leitura mais coerente dos Evangelhos, livre de simplificações anacrônicas e de aparentes contradições entre os relatos.
Sentido histórico, vigílias noturnas e precisão dos Evangelhos
1. O que era o “canto do galo” na cultura bíblica?
a) Sentido literal
Sim, havia galos de verdade na Judeia do século I, especialmente em áreas urbanas e rurais. O canto do galo era um som conhecido, tradicionalmente associado ao fim da noite e início da manhã.
Contudo, nos relatos evangélicos, o termo não é utilizado de forma popular ou doméstica, mas inserido dentro de um sistema oficial de marcação do tempo, reconhecido no mundo judaico-romano.
Por isso, reduzir o texto apenas ao animal é empobrecer o sentido.
b) Sentido histórico-cultural (mais importante)
No mundo judaico-romano, a noite era dividida em vigílias (guardas).
Segundo o sistema romano — que já estava em vigor na época de Jesus — a noite tinha quatro vigílias:
1. Primeira vigília – 18h às 21h
2. Segunda vigília – 21h às 24h
3. Terceira vigília – 24h às 3h
4. Quarta vigília – 3h às 6h
A terceira vigília (meia-noite às 3h) era chamada de:
ἀλεκτοροφωνία (alektorophōnía)
literalmente: “canto do galo”.
Ou seja:
“Canto do galo” era um termo técnico para um horário da noite, não apenas o som do animal.
Marcos 13:35 confirma isso claramente:
“Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o senhor da casa: à tarde, à meia-noite, ao cantar do galo ou pela manhã.”
Aqui, “cantar do galo” aparece lado a lado com marcadores de tempo, não com zoologia.
2. Quantas vezes o galo cantou?
Aqui está o ponto que gera confusão:
a) Os relatos dos Evangelhos
▪️Mateus 26:34 – o galo cantará
▪️Lucas 22:34 – o galo não cantará hoje
▪️João 13:38 – o galo não cantará
▪️Marcos 14:30 – antes que o galo cante duas vezes
Apenas Marcos menciona “duas vezes”.
b) Isso é contradição?
Não. Pelo contrário — é precisão histórica.
Na prática:
▪️O primeiro canto ocorria por volta da meia-noite
▪️O segundo canto, mais forte e definitivo, por volta das 3h da manhã
Era comum dizer simplesmente “antes que o galo cante”, referindo-se ao canto decisivo, o segundo.
Marcos, escrevendo para leitores romanos, preserva o detalhe técnico.
Os outros evangelistas resumem ao marcador final.
Quando o texto diz:
“E imediatamente o galo cantou” (Lc 22:60)
Está indicando:
▪️O fim da vigília do “canto do galo”
▪️A chegada do amanhecer
▪️O momento exato em que a profecia se cumpre
3. Significado teológico do “canto do galo”
O canto do galo simboliza:
▪️O fim da noite
▪️O momento do juízo da consciência
▪️O confronto entre autoconfiança e fraqueza humana
▪️A transição da queda para a possibilidade de arrependimento
Não é à toa que:
“O Senhor voltou-se e fitou Pedro.” (Lc 22:61)
O canto não acusa. Ele revela.
4. Resumo final
▪️O “canto do galo” era um marcador oficial de tempo (3ª vigília da noite).
▪️Havia canto literal, mas o termo vai além do animal.
▪️O galo cantou duas vezes, conforme Marcos — o segundo marca o cumprimento pleno da profecia.
▪️Teologicamente, representa o despertar doloroso da consciência diante da verdade.
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| Diogo Oliveira |


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