Deus se arrependeu ou a Bíblia se contradiz? O que o hebraico de נָחַם revela sobre essa aparente contradição

Se Deus não muda, por que a Bíblia diz que Ele se arrependeu?

— A resposta está no hebraico —


Quando a Bíblia diz que Deus “se arrependeu”, o verbo hebraico empregado é נָחַם — nāḥam (pronuncia-se aproximadamente “ná-RRÁM”). Essa é a forma lexical do verbo, cujo campo semântico pode envolver pesar, lamento, compaixão, arrependimento, mudança de disposição e consolo, dependendo da forma verbal e do contexto.


Em Gênesis 6:6, porém, não aparece simplesmente נָחַם (nāḥam), mas a forma verbal conjugada וַיִּנָּחֶם — wayyinnāḥem (pronuncia-se aproximadamente “vai-yin-na-RRÊM”), uma forma do Nifal desse verbo (o Nifal é uma estrutura do hebraico usada aqui para indicar uma ação reflexiva ou um estado interno de afetação — isto é, Deus sendo apresentado como movido e profundamente tocado pelo cenário humano). Nesse contexto, ela expressa o pesar ou lamento de Deus diante da situação de corrupção e violência da humanidade.

O próprio versículo acrescenta וַיִּתְעַצֵּב — wayyitʿaṣṣēḇ (pronuncia-se aproximadamente “vai-yit-at-SÊV”), “e se entristeceu”, da raiz ע־צ־ב (ʿ-Ṣ-B), relacionada ao verbo ʿaṣab (‘Atsav), enfatizando a tristeza, a dor e a aflição de Deus em seu coração.


Isso não significa que Deus tenha cometido um erro ou descoberto que estava errado, mas sim que a sua reação revela uma resposta divina perfeitamente ajustada à dura realidade humana.


É importante, porém, ter cuidado com a expressão “mudança de atitude”. Embora ela possa ser utilizada em determinado sentido, pode sugerir que Deus mudou de opinião, de intenção ou de retidão, como se tivesse inicialmente tomado uma decisão equivocada e depois precisasse reconsiderá-la. Por isso, uma formulação mais precisa é falar em “mudança de resposta” ou “mudança na ação divina diante de uma nova situação”. A posição humana muda, e a resposta de Deus a essa condição também é apresentada de maneira diferente, sem que isso implique qualquer alteração em sua natureza, caráter, conhecimento ou perfeição. Não é uma mudança em quem Deus é, mas uma mudança na maneira como sua atuação se manifesta na história em resposta às ações humanas.


Essa descrição emprega uma linguagem antropopática — isto é, uma forma de falar sobre Deus em termos de sentimentos humanos, comunicando-nos, dentro da linguagem que podemos compreender, como Ele se relaciona com a conduta humana.


Deus permanece imutável em sua identidade e integridade moral; o que muda é sua resposta diante da mudança de postura do homem.


Ou seja, Deus não é instável nem incoerente. Ele conserva-se santo, justo e constante em seu ser intrínseco, mas responde de maneira relacional diante das escolhas humanas.


Essa dinâmica fica evidente em passagens como: Jonas 3:10 (onde Deus “mudou seu agir” sustando a sentença declarada ao ver que Nínive se converteu do seu mau caminho) e Êxodo 32:14 (onde o Senhor deixou de trazer a desgraça que havia anunciado após a intercessão de Moisés). Contudo, 1 Samuel 15 é praticamente o quadro perfeito para essa discussão. Em todos esses textos, variações do mesmo verbo, derivado da raiz נ־ח־ם (N-Ḥ-M), aparecem em contextos nos quais a resposta divina diante de uma determinada circunstância é apresentada como uma mudança.


No versículo 11, Deus declara:

“Arrependo-me (נִחַמְתִּי — niḥamtî, pronuncia-se aproximadamente “ni-RRÁM-ti”)) de haver constituído Saul rei...”


Mas, no versículo 29, o próprio texto declara:

“A Força de Israel não mente, nem se arrepende (יִנָּחֵם — yinnāḥēm, pronuncia-se aproximadamente “yin-na-RRÊM”), porque não é homem para que se arrependa.”


Aqui está o ponto fundamental: a mesma passagem afirma que Deus “se arrepende” e, ao mesmo tempo, que Ele não se arrepende como um homem.


Portanto, “Deus se arrependeu” não pode simplesmente traduzir-se como uma correção de rumo, como se Ele tivesse incorrido em erro e precisasse reavaliar seu conhecimento ou seu julgamento. O próprio contexto impede essa interpretação reducionista.


O que o texto apresenta é uma mudança na ação e na resposta de Deus diante de uma nova realidade, sem que isso acarrete mudança em sua sustância, virtudes ou plenitude.


Por isso, quando Deus “se arrepende” do veredito anunciado, não há contradição: não se trata de mudança em sua essência, mas de mudança em sua ação ou resposta diante do comportamento humano.


Deus pode mudar sua maneira de agir sem jamais mudar quem Ele é.


Diogo Oliveira 


Comentários

  1. O seu artigo ou comentário ficou muito claro para quem não tem acesso ao saber teológico, ou seja, ao leigo. Parabéns! 👏
    Paulo Pimentel: @paulo.dgt

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